quinta-feira, 28 de julho de 2011

Exercícios de Advérbios

                                              
Nas frases abaixo, sublinha os advérbios que encontrares.Em seguida,reescreve-os dentro do quadro nos lugares certos.

No continente africano deflagrou,ontem,mais um conflito.
·         As duas partes dificilmente se entenderão.
·         Talvez seja tempo para as partes envolvidas refletirem sobre o futuro de milhares de pessoas.
·         Agora,aqui,lá,ali,morrem milhares de pessoas por causa de lutas de poder.
·         Diariamente,podemos ler nos jornais sobre os problemas da humanidade.Alguns fatos são dramáticos!

Advérbios de lugar:

Advérbios de dúvida:

Advérbios de tempo:

Advérbios de modo:



Acolá-Amanhã-Apressadamente-bem-devagar-hoje-longe-ontem-perto-amanhã-devagar

Complete o texto com os advérbios de modo,lugar e tempo descritos acima:

1-________________ vou visitar o meu primo Alberto.
2-Eles moram_______________ de Coimbra. Com receio de chegar atrasado, ele saiu _____________ de casa.
3-______________ se vai ao longe.
4-_________________, no cume da colina, avista-se uma bela paisagem.
5-_________________ estava ________________de casa e ________________ do riacho.
6-O Paulo portou-se _______________ na visita de estudo.
7-A Marta chegará a Paris __________________.
8-___________ irei visitar a tia Clara.
9-Ele realizou nas tarefas propostas muito ________________.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Complexo de Roberto Carlos


“Eu quero ter um milhão de amigos” é o famoso verso da linda canção “Eu Quero Apenas”, de Roberto
Carlos. Adaptado aos nossos tempos, o verso representa o anseio que está na base do atual sucesso das
redes sociais. Desde que Orkut, Facebook, MySpace, Twitter, LinkedIn e outros estão entre nós, precisamos
mais do que nunca ficar atentos ao sentido das nossas relações. Sentido que é alterado pelos meios a partir
dos quais são promovidas essas mesmas relações.
O fato é que as redes brincam com a promessa que estava contida na música do Rei apenas como metáfora.
O que a canção põe em cena é da ordem do desejo cuja característica é ser oceânico e inespecífico.
Desejar é desejar tudo, é mais que querer, é o querer do querer. Mas quem participa de uma rede social
ultrapassa o limite do desejo e entra na esfera da potencialidade de uma realização que vem tornar
problemática a relação entre real e imaginário. Se a música enuncia que “eu quero ter um milhão de amigos”,
ela antecipa na ala do desejo o que nas redes sociais é seu cumprimento fetichista. E o que é o fetichismo
senão a realização falsa de uma fantasia por meio de sua encenação sem que se esteja a fazer ficção?
Torna-se urgente compreender as redes sociais quando uma nova subjetividade define um novo modo de
vida caracterizado pelo que chamaremos aqui de complexo de Roberto Carlos.
Tal complexo se caracteriza pelo desejo de ter um milhão de amigos no qual não está contido o desejo de ter
um amigo verdadeiro, muito menos único. A impossibilidade de realização desse desejo é até mesmo física.
Não seria sustentável para o frágil corpo humano enfrentar “um milhão” de contatos reais. Na base do
complexo de Roberto Carlos está a necessidade de sobrevivência que fez com que pessoas tenham se
reunido em classes sociais, famílias, igrejas, partidos, grêmios, clubes e sua forma não regulamentada que
são as “panelas”. Um milhão de amigos, portanto, ou é metáfora de canção ou é fantasmagoria que só cabe
no infinito espaço virtual que cremos operar com a ponta de nossos dedos como um Deus que cria o mundo
do fundo obscuro de sua solidão. Complexo de Roberto Carlos, de Rei, ou de DeusG
Questão fantasmagórica
A questão é da ordem do imaginário e de sua eficiente colonização. Não haveria o que criticar nesse desejo
de conexão se ele não servisse de trunfo exploratório sobre as massas. Refiro-me às empresas de
comunicação digital que usam o desejo humano de conexão e comunicação como isca para conquistar
adeptos. Amizade é o nome dessa isca. Mas o que realmente está sendo vendido nessas redes se a
amizade for mais que isso? Certamente não é a promessa de amizade, mas a amizade como gozo: a ilusão
de um desejo realizado. E quando um desejo se realiza? Apenas quando ele dá lugar à aniquilação daquilo
que o impulsionava.
Logo, o paradoxo a ser enfrentado nas redes sociais é que a maior quantidade de amigos é equivalente a
amizade nenhuma. A amizade é como o amor, que só se sustenta na promessa de que será possível amar.
Por isso, quando se sonha com o amor, ele sempre é desejo de futuro, no extremo, de uma eternidade do
amor. O mesmo se dá com a amizade. Um amigo só é amigo se for para sempre. Mas quem é capaz de
sustentar uma amizade hoje quando se pode ser amigo de todos e qualquer um?
De todas as redes sociais, duas delas, Orkut e Facebook, usam a curiosa terminologia “amigo” para nomear
seus participantes. Certamente o uso da palavra não garante a realidade do fato, antes banaliza o
significado do que poderia ser amizade, como mostra o recente filme A Rede Social (The Social Network,
2010), dirigido por David Fincher. O filme não é apenas um retrato de Mark Zuckerberg, o jovem e bilionário
criador do Facebook, mas uma peça que pode nos fazer pensar sobre o sentido que nosso tempo digital dá
à amizade.
Mark Zuckerberg, como personagem do filme, é o sujeito excluído de um clube. Dominado pelo básico desejo
humano de “fazer parte”, ele decide criar seu próprio clube. No filme, ele consegue ter milhares de
“conectados” – na realidade o Facebook hoje conecta 500 milhões de pessoas ou “amigos” – e perder seu
único amigo verdadeiro, Eduardo Saresin. A amizade é a básica e absoluta forma da relação ética,
aprendida como função fraterna no laboratório familiar e na escola; ela é uma qualidade de relação. Tratá-la
como quantidade é a autodenúncia de seu fetiche e de sua transformação em mercadoria. O valor do filme
está em mostrar a inversão diante da qual não há mais nenhuma chance de ética: um amigo não vale nada
perto de milhões, como uma moedinha que perde seu valor diante de um cofre cheio. Amigos transformados
em números não são amigos em lugar nenhum, nem na metáfora de Roberto Carlos, que serve aqui para
denunciar criticamente o mundo do qual somos responsáveis junto com Mark Zuckerberg.
ter, 15/02/11
por marcia.tiburi |
categoria Sem Categoria
Meu artigo deste mês na Revista Cult http://revistacult.uol.com.br/home/2011/02/complexo-de-roberto-carlos/

O vazio da intimidade


Por Marcia Tiburi

Intimidade é a categoria inventada para dar conta do aspecto mais interior da experiência pessoal humana.
Diz-se íntimo do que não pode ser exposto. Fala-se da intimidade para expressar aquilo que não cabe na
exterioridade das existências. Íntimo é sempre relativo ao que se esconde, ao reservado, ao que se preserva
do contato com a esfera da vida pública. É uma instância de segredo, por meio da qual seres humanos se
sentem donos de si mesmos. Íntimo é, pois, o lugar onde cada um se sente descoberto em sua subjetividade
apenas para si mesmo, em uma espécie de contraposição ou negação da objetividade. Como na solidão na
qual, em vez de sofrimento, encontra-se a salvaguarda de si. Por meio da intimidade cada um se sente em
uma ilha deserta para a qual viajou voluntariamente.
Íntimo é aquilo que não pode ser simplesmente comunicado. É o que se aparta da comunidade mesmo
permanecendo dentro dela. Íntima é, da vida, a parte silenciosa, a que não pode ser publicada. Ocorre que
a cultura humana é marcada pela exigência de comunicabilidade. Relacionamo-nos uns aos outros e nesta
ação linguística está o cerne da experiência humana enquanto ela é política e ética. Certamente deturpamos
o sentido da comunicabilidade quando a compreendemos como mera relação de troca em um mundo de
mercadorias.
Na cultura contemporânea em que as tecnologias da imagem aliadas aos meios de comunicação de alta
difusão determinam as formas de vida na sociedade do espetáculo, em que a era digital define um padrão
estético e ético de ação, em que a compulsão à exposição de si vai das revistas de celebridades às redes
sociais, não é difícil pensar que vivemos no tempo da banalização da intimidade. Tal banalização é, na
verdade, um interessante paradoxo. Se banal é aquilo que pode ser usado por todos, enquanto íntimo é
aquilo que pertence apenas a um indivíduo, como seria possível banalizar o íntimo sem eliminá-lo? Em
outras palavras, se banalizamos o íntimo e assim o eliminamos, será mesmo do íntimo e da intimidade que
ainda estamos tratando? Ora, a expressão da intimidade sempre fez parte dos esforços poéticos e literários
na história humana. Mas se não foi simples para os poetas, por que devemos achar que é tão alcançável e
comunicável pelos internautas e usuários das mídias contemporâneas em geral?
A intimidade banal não existe. Aquilo que podemos chamar de compulsão à exposição representa-se na
extinção do íntimo. Se íntimo é o que não se expõe não podemos considerar que a publicização da vida tem
simplesmente o poder de extirpá-lo. A exposição de “intimidades” – como as partes íntimas, as mais ocultas
no corpo de uma pessoa – são bem conhecidas nas representações de obscenidades que compõem a
pornografia. Há que se considerar, no entanto, que o órgão sexual exposto já não é íntimo, mas
obscenamente recortado, ele é qualquer coisa que se dá a conhecer como objeto, como algo não mais
experimentado subjetivamente, mas objetivamente percebido. Íntima é uma experiência de subjetividade que
não é facilmente medida em termos objetivos. Ela é conhecida apenas negativamente.
A pergunta é, portanto, em que momento o íntimo deixa de existir? Por que precisamos pensar que os
tempos de miséria da subjetividade vencem tão facilmente o elemento misterioso que compõe a experiência
de si a que denominamos intimidade e sobre a qual podemos falar apenas de fora, justamente porque as
palavras apenas a tocam como algo externo à medida que ela se refere a um “dentro”? Que lógica seria esta
que desconsidera tão facilmente sua potência? Discursar sobre seu fim é alerta contra um perigo que paira
sobre ela ou mera propaganda niilista que inventa tê-la encontrado?
A intimidade é mais uma forma de relação do que uma instância. Assim, não podemos dizer que o
ciberespaço, que a internet como “lugar” substitui o lugar da intimidade, porque a intimidade não é
simplesmente algo que se encontra no espaço, não é, portanto, um objeto. Ela é, muito mais, aquilo que, do
espaço não se pode simplesmente acessar. Tampouco é um dentro que se põe para fora. A chave da
intimidade pertence unicamente a seu portador. Assim é que a intimidade é um modo de relacionar-se
com espaços e objetos que se configura e reconfigura nos processos sociais. Ela é uma experiência pessoal.
Logo, as redes sociais não eliminam a intimidade pela sua hiperexposição porque intimidade é o que,
sendo exposto, já não está ali. O que as pessoas expõem é a angústia do vazio enquanto a intimidade é
algo que permanece na esfera de segredo de cada um. Logo, a exposição da intimidade na internet ou é
mentira ou é compulsão à exposição. A intimidade mesma é uma força de negação que não se reduz a
demandas objetivas sem resistência.

"Bullying" contra o português

Nosso idioma é vulnerável aos ataques do inglês, e ninguém
está disposto a protegê-lo... até porque falar errado virou chique

por Luís Antônio Giron

Na semana passada, minha mulher comprou um pote de geleia de mirtilo, com o seguinte selo: “Geleia de blueberry”. Num acesso de hipercorreção, risquei a palavra “blueberry” e escrevi por cima “mirtilo”, não sem antes passar um “branquinho” sobre o rótulo. “Você está louco?”, me disse Miriam ao descobrir o trote. “É assim que nascem os serial killers!”, exagerou. Respondi no meu espírito habitual: “Brincadeira sem graça. E por que não ‘assassinos seriais’?” Ela atacou: “Porque você diria que é anglicismo”. Neutralizado pela jogada dela, fiquei tentando encontrar um correspondente em português para “serial killer”, mas não consegui. Tive de me resignar à expressão americana. “Tudo bem, assassino serial, tudo em nome da língua portuguesa. Não aguento mais escreverem tudo errado!” Ela riu: “Se constasse ‘mirtilo’ em vez de ‘blueberry’ no rótulo, o produto não venderia! Sabe por quê? Porque ninguém sabe o que é mirtilo.” Pois é, ninguém leva a questão da pureza da língua a sério. Sobrei eu. Ou nem eu...


Mas, como diriam os sambistas, ainda posso ser considerado um dos “últimos baluartes da língua portuguesa”. Pode parecer um título pretensioso, até porque não recebi de ninguém outorga ou procuração para a função. Ou ridículo, por lembrar o personagem do romance Triste fim de Policarpo Quaresma, publicado em 1915, de Lima Barreto: Policarpo é aquele coronel aposentado que infla o peito quando fala de Brasil e se orgulha de tudo o que é nativo, a ponto de propor que o tupi-guarani seja elevado a idioma oficial da república. Claro ele que dá com os burros n’água e é ridicularizado por todos, inclusive pelo narrador. Não sou xenófobo nem avesso a influências estrangeiras em qualquer que seja a cultura, a brasileira inclusive. Defendo o acesso universal à cultura e aos idiomas em um planeta cada vez menor. Costumo dizer que é sempre melhor um plus a mais do que um less de menos. Há situações, porém, que me causam tamanha irritação, que tem gente me chamando de Novo Policarpo Quaresma. Já peguei a fama na minha própria causa por causa do mirtilo, mais conhecido por aqui como blueberry.


Nessas, quem se estrepa sou eu. O que me exaspera é a preguiça e a assumida ignorância dos usuários do português no Brasil. Chamam urubu de meu louro, e blueberry de mirtilo. As pessoas estão falando e escrevendo em um português cada vez mais estropiado. E a causa principal se encontra na tenaz e persistente contaminação do inglês. Pior, acham o máximo cometer erros simultaneamente nas duas línguas, inglês e português. Assim, tenho sido forçado a lutar pela língua, como se envolvido em uma guerra. Não fui convocado ao serviço militar do léxico, mas eis-me no campo de batalha. E aí, como diz o ditado, agora dou uma boiada para não sair mais da briga. Como se mal diz hoje, eu me voluntariei (leia-se em bom português: “ofereci-me”). Chamem-me do que quiserem. Ao ataque!


Hoje em dia, a turma que entende das coisas adora falar que os estudantes “sofrem bullying”. Ô, palavrinha mais antipática... O tal do “bullying” está na boca do Brasil inteiro, e com pronúncia errada (as pessoas gostam de dizer “bãling”, o que as torna ainda mais ridículas). A palavra “bully” tem uma origem chã: provém de “bull”, touro, do inglês do século XVII e significava originalmente “fanfarrão”, “mata-mouros”. Só mais modernamente passou a designar perseguição e agressão, em português. O correto seria dizer: “Os estudantes sofrem perseguição nas escolas”. Não ouso afirmar que a língua portuguesa está sendo agredida. Para convencer meu interlocutor, tenho de “refrasear” (em vez de “refazer”) a afirmação para: “O português está sofrendo bullying”. Aí todos entendem, batem palmas e pedem bis – ou, como se diz em inglês, “encore”. Isso porque agora o correto já virou incerto. Eu não posso falar que temos um prazo final no fechamento desta edição. Para parecer mais sofisticado, tenho de alertar que não há prazo final, e sim um “deadline”. Sinto-me mais bacana por dizer “deadline” e “approach”, entre outras baboseiras do atual jargão do jornalismo.


Tenho a impressão de que todo mundo, inclusive eu, esqueceu-se das palavras precisas para designar determinadas situações e objetos. O bombardeio dos termos em inglês provoca amnésia linguística e tornou legítimos barbarismos como “provocativo” em vez de “provocador” e “basicamente” em vez de “fundamentalmente”. Ainda mais risível é quando usam “eventualmente” no sentido de “finalmente” – “eventually” em inglês. Realizou?


Nesse campo da prática de abusos, os críticos de música e cinema são tradicionalmente os piores: eles enxameiam seus textos de termos em inglês e expressões esdrúxulas. Só que agora andam a abusar do direito que se autoatribuíram (daqui a pouco vão dizer “se self atributiram” ou qualquer coisa do tipo). Ninguém mais estraga prazeres ao contar o desfecho de um filme; agora o que vale é o popular “spoiler alert”. Quando você vai contar a trama de um filme, terá de dizer assim: “Cuidado que tem spoiler!” Quando um crítico me diz isso me dá vontade de pular, pois a palavra soa como uma espécie de escaravelho ou baratagigante.


No dia a dia, o pessoal vive se metendo em “brainstorming”, vocábulo inglês que pode ser facilmente traduzido para confabulação. Que tal confabular em vez de “fazer um brainstorm”? Acho uma troca vantajosa, até porque é menos barulhenta, “brainstorm” evoca tempestades com raios e trovões. Nada melhor que confabular, trocar ideias e histórias. Além de tudo, soa melhor.


O português surgiu por volta do século XII (embora haja documentos de duzendos anos antes) a partir da evolução do latim vulgar na Península Ibérica, com contaminações de termos celtas, visigóticos e árabes. No começo, era chamado de “galego-português” porque a fala e a escrita apareceram no norte de Portugal, na fronteira com a Galícia. As poesias palaciana, de amigo e de escárnio e maldizer foram criadas e publicadas antes mesmo da consolidação de idiomas como espanhol, italiano, alemão e... inglês. Língua venerável, o português. Um idioma imperial do século XVI. Por isso, bonita como uma caravela engalanada, clara e solar como as igrejas góticas de Lisboa.


Amo os meios-tons que suas vogais contêm, aparentadas francês. É um grande prazer remexer no léxico riquíssimo do idioma, brincar com a possibilidade que ele oferece de alongar as frases quase ao infinito, pois o português flui como uma plácida corrente de rio. Adoro certas palavras que não constam de línguas irmãs, como a (quase) intraduzível “saudade”, ou aquelas que existem em outras, que ganham um sabor delicado no vernáculo, como “brisa”, “maçã” e “paixão”. Os ecos artísticos são grandes. Eu sei que blueberry consta de um belo filme de Won kar-wai. Trata-se de My blueberry nights, traduzido em português pelo título pedestre Beijo roubado em vez de “Minhas noites de mirtilo”. Blueberry é uma palavra que a gente amassa com dois dedos. Mirtilo, não. O vocábulo está em Camões e Petrarca, que, por sua vez, beberam na fonte de Horácio e Virgílio. Mirtilo evoca pastores do Parnaso e da Serra da Estrela. É antigo e lírico, como o português.


Por isso, podem vir com seu temível bullying contra a língua portuguesa, que estarei a postos para toureá-lo, apagá-lo e substituí-lo pelo castiço verbo agredir. Que mais “geleias de blueberry” arremetam contra mim, que as receberei com meu poderoso corretor. Não sou besta. Sei que as línguas são dinâmicas e abertas a influências externas. São organismos vivos. Mas daí a se render totalmente à ignorância dos próprios recursos, de seu thesaurus, vai um abismo. Os tão festejados e pouco praticados “laços lusófonos” só têm ajudado a apagar a delicada língua de Camões das areias da cultura. Parece que quase ninguém está disposto a preservar o que quer que seja, quanto mais suas referências espirituais. Restam alguns poucos Quaresmas neste país. Mas se eu for o último homem em pé para proteger o idioma, pelo menos terei orgulho do que deixei de realizar, mas ao menos tentei.


O leitor-mendigo
"Não sou um homem triste, mas preciso de tudo traduzido em palavra, texto, linha após linha, letra após letra", falava sempre, quase como se desculpando por ler tanto. Na cidade, passou a ocupar o espaço dos cegos. Usa diariamente aquelas faixas salientes que as novas leis exigem para que os deficientes visuais caminhem melhor. Pois ele se apoderou delas e segue lendo, cabeça baixa, olhos fincados no livro. Apenas os pés fazendo as vezes dos olhos, apenas os pés sabendo dos caminhos, o resto do corpo está em comunhão com o livro escolhido.

Quando lhe perguntam por que ele lia tanto, não sabe a resposta: "Talvez seja pelo mesmo motivo pelo qual você respire tanto?", arriscou num momento de bom humor. Não entenderam. Nunca o entenderam. Não foi homem capaz de agüentar o mundo, por isso lê. No mundo concentrado dos livros, ele pode se aguentar, aguentar tudo e todos.

"As palavras são macias, as palavras são doces prostitutas anciãs, querem apenas um pouco de atenção para que possam distribuir seus carinhos a quem as procura", discursava sempre que alguém exigia saber o motivo de ler tanto, de não dividir seu tempo entre leitura e as demais coisas, como faz toda a gente normal. Ele pegava um trecho qualquer e lia alto, para que seu desafiador soubesse que a normalidade estava nos livros, nas palavras escritas, naquele conjunto de símbolos que fazia sentido, ali estava a normalidade e não no mundo externo, desordenado, absurdo.

Depois, foi silenciando à medida que a cidade foi silenciando com ele também. Já fazia parte da paisagem. Era como se fosse um desses mendigos clássicos. Chegam a ser amados por sua completa desobediência aos ditames sociais. Um mendigo leitor. Um homem sábio destituído de todos os bens materiais, tendo apenas as palavras escritas como roupa e comida. Aos poucos foi largando tudo, tudo que o prendia à vida cotidiana, à vida de homem sério.

"Eu sou um leitor. A quantidade de livros é muito grande. Não posso perder tempo, tenho de ler mais e mais, senão a vida acaba e eu não li o suficiente para me manter na eternidade." Os interlocutores riam sempre, cada dia uma resposta diferente, um motivo diverso para que seja tão leitor. E provocam, querem saber por que ele sabendo tanto não repassa o conhecimento aos outros? Ou se ainda é virgem? Ou se não tem medo de ficar cego? A cada dia, ele traz uma desculpa diferente, mais bonita, mais cheia de verdade e beleza. Muitos passaram a parar apenas para ouvi-lo por alguns instantes.

Com o tempo passando, passou a ser conhecido como o profeta, o homem dos mil livros, o homem que enxerga o mundo pela palavra escrita. Alguns tornaram as esparsas palavras do leitor-mendigo um oráculo, um presságio.

Por isso, ele já sonhou com o dia em que toda a cidade o seguirá sobre a faixa de cegos, cada um com um livro, cada um usando os pés como olhos, e os olhos como caminho de libertação ao reino da palavra escrita.

(Rubens da Cunha)