O leitor-mendigo
"Não sou um homem triste, mas preciso de tudo traduzido em palavra, texto, linha após linha, letra após letra", falava sempre, quase como se desculpando por ler tanto. Na cidade, passou a ocupar o espaço dos cegos. Usa diariamente aquelas faixas salientes que as novas leis exigem para que os deficientes visuais caminhem melhor. Pois ele se apoderou delas e segue lendo, cabeça baixa, olhos fincados no livro. Apenas os pés fazendo as vezes dos olhos, apenas os pés sabendo dos caminhos, o resto do corpo está em comunhão com o livro escolhido.
Quando lhe perguntam por que ele lia tanto, não sabe a resposta: "Talvez seja pelo mesmo motivo pelo qual você respire tanto?", arriscou num momento de bom humor. Não entenderam. Nunca o entenderam. Não foi homem capaz de agüentar o mundo, por isso lê. No mundo concentrado dos livros, ele pode se aguentar, aguentar tudo e todos.
"As palavras são macias, as palavras são doces prostitutas anciãs, querem apenas um pouco de atenção para que possam distribuir seus carinhos a quem as procura", discursava sempre que alguém exigia saber o motivo de ler tanto, de não dividir seu tempo entre leitura e as demais coisas, como faz toda a gente normal. Ele pegava um trecho qualquer e lia alto, para que seu desafiador soubesse que a normalidade estava nos livros, nas palavras escritas, naquele conjunto de símbolos que fazia sentido, ali estava a normalidade e não no mundo externo, desordenado, absurdo.
Depois, foi silenciando à medida que a cidade foi silenciando com ele também. Já fazia parte da paisagem. Era como se fosse um desses mendigos clássicos. Chegam a ser amados por sua completa desobediência aos ditames sociais. Um mendigo leitor. Um homem sábio destituído de todos os bens materiais, tendo apenas as palavras escritas como roupa e comida. Aos poucos foi largando tudo, tudo que o prendia à vida cotidiana, à vida de homem sério.
"Eu sou um leitor. A quantidade de livros é muito grande. Não posso perder tempo, tenho de ler mais e mais, senão a vida acaba e eu não li o suficiente para me manter na eternidade." Os interlocutores riam sempre, cada dia uma resposta diferente, um motivo diverso para que seja tão leitor. E provocam, querem saber por que ele sabendo tanto não repassa o conhecimento aos outros? Ou se ainda é virgem? Ou se não tem medo de ficar cego? A cada dia, ele traz uma desculpa diferente, mais bonita, mais cheia de verdade e beleza. Muitos passaram a parar apenas para ouvi-lo por alguns instantes.
Com o tempo passando, passou a ser conhecido como o profeta, o homem dos mil livros, o homem que enxerga o mundo pela palavra escrita. Alguns tornaram as esparsas palavras do leitor-mendigo um oráculo, um presságio.
Por isso, ele já sonhou com o dia em que toda a cidade o seguirá sobre a faixa de cegos, cada um com um livro, cada um usando os pés como olhos, e os olhos como caminho de libertação ao reino da palavra escrita.
Quando lhe perguntam por que ele lia tanto, não sabe a resposta: "Talvez seja pelo mesmo motivo pelo qual você respire tanto?", arriscou num momento de bom humor. Não entenderam. Nunca o entenderam. Não foi homem capaz de agüentar o mundo, por isso lê. No mundo concentrado dos livros, ele pode se aguentar, aguentar tudo e todos.
"As palavras são macias, as palavras são doces prostitutas anciãs, querem apenas um pouco de atenção para que possam distribuir seus carinhos a quem as procura", discursava sempre que alguém exigia saber o motivo de ler tanto, de não dividir seu tempo entre leitura e as demais coisas, como faz toda a gente normal. Ele pegava um trecho qualquer e lia alto, para que seu desafiador soubesse que a normalidade estava nos livros, nas palavras escritas, naquele conjunto de símbolos que fazia sentido, ali estava a normalidade e não no mundo externo, desordenado, absurdo.
Depois, foi silenciando à medida que a cidade foi silenciando com ele também. Já fazia parte da paisagem. Era como se fosse um desses mendigos clássicos. Chegam a ser amados por sua completa desobediência aos ditames sociais. Um mendigo leitor. Um homem sábio destituído de todos os bens materiais, tendo apenas as palavras escritas como roupa e comida. Aos poucos foi largando tudo, tudo que o prendia à vida cotidiana, à vida de homem sério.
"Eu sou um leitor. A quantidade de livros é muito grande. Não posso perder tempo, tenho de ler mais e mais, senão a vida acaba e eu não li o suficiente para me manter na eternidade." Os interlocutores riam sempre, cada dia uma resposta diferente, um motivo diverso para que seja tão leitor. E provocam, querem saber por que ele sabendo tanto não repassa o conhecimento aos outros? Ou se ainda é virgem? Ou se não tem medo de ficar cego? A cada dia, ele traz uma desculpa diferente, mais bonita, mais cheia de verdade e beleza. Muitos passaram a parar apenas para ouvi-lo por alguns instantes.
Com o tempo passando, passou a ser conhecido como o profeta, o homem dos mil livros, o homem que enxerga o mundo pela palavra escrita. Alguns tornaram as esparsas palavras do leitor-mendigo um oráculo, um presságio.
Por isso, ele já sonhou com o dia em que toda a cidade o seguirá sobre a faixa de cegos, cada um com um livro, cada um usando os pés como olhos, e os olhos como caminho de libertação ao reino da palavra escrita.
(Rubens da Cunha)
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